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21 janeiro 2014

Frederico Füllgraf - Retrato do meu avô indo à guerra



Conto

Fui uma criança sem avós.

Tocado por essa dolorosa falta, relato aqui minha amizade com o avô Hendrik Holler, a quem homenageio na véspera dos eventos que lembrarão os 100 anos da Primeira Guerra Mundial, a guerra que moldou o séc. XX.

Nossa amizade começou em minha adolescência, com as narrativas da minha mãe, na verdade todas muito deslumbradas, inpiradas por sua adoração de garotinha temporona por um pai já quarentão.

Visitei o avô Hendrick três vezes. Na primeira - eu tinha apenas treze anos -depois de uma longa viagem à sua terra natal, fui levar flores ao seu túmulo, que dividia com a vó Edburga. Na segunda, eu já residia em seu país, e acompanhei Bilhildis, a mais velha de minhas primas, residente na Oceania, durante uma incursão ao sótão empoeirado do hotel abandonado dos nossos avós.

Anos mais tarde, de volta ao Brasil, voltei a folhear um dos álbuns de família e deparei-me com uma foto do avô, aqui contextualizado pela História, mas todo emoldurado por mitos. Porque as narrativas familiares são mitos, alguns engenhosos, outros, descaradamente mentirosos.

De todo modo, era uma fotografia memorável, em tonalidade sépia, sobre cuja idade exata muito assuntei, porque no verso o fotógrafo vaidoso esmerara-se em carimbar o nome de seu estúdio, mas omitira a datação do instantâneo.

Não tive dúvidas, furtei-a do álbum da minha mãe e reproduzi-a numa crônica de jornal, que depois se perdeu. E para desgraça, a fotografia também desapareceu, que aqui mal troco por um postal da época, que ilustra a cena da despedida. Motivo pelo qual cabe ao leitor decidir, se quer mesmo acreditar nessa estória, tornando-se meu cúmplice.

A propósito, percebo neste momento que a predominância de álbuns de uma das linhagens da família sobre a outra, aos poucos vai se impondo como a história oficial, sutil e dirigida, até reinar como micro-política dos clãs interesseiros. É o que sugere a profusão de álbuns da família da mãe em detrimento de imagens da família do pai. Talvez seja essa a explicação para a ausência de fotografias do pai do meu pai, o avô Nörgel, palavra que em português pode significar ranzinza, chato, enjoado ou rabugento. Segundo a avó Johanna Charlotte, sua esposa, ele era tudo isso, mas quando moço também fora belo, por isso casara-se com ele.

Durante uma pesquisa, muitos anos mais tarde, descobri que, por volta de 1935, o avô Nörgel se inscrevera como membro no partido nazista, o que por outro lado não o impedira de proteger a esposa, que não era ariana pura, segundo o padrão sanguíneo exigido à época.

Mas não quero perder tempo e me apresso em descrever a foto do meu avô heroico, o Hendrik. 

Trata-se de um instantâneo da 1a. Guerra Mundial, que terminou em 1918, mas foi retomada vinte anos depois pelos mesmos senhores, dos quais a vovó Johanna Charlotte teve que ocultar sua árvore genealógica.


Na fotografia ausente, o avô Hendrik veste uniforme da infantaria do exército do Kaiser, cujo acabamento, sobre a cabeça, é um morrião prussiano, capacete encimado por um espeto metálico, de aspecto tenebroso. Imaginado como insinuação de derradeiro recurso, inventado pelos alfagemes para o caso de perda total das armas de assalto, parece sugerir ao combatente, virtualmente rendido que, tomando impulso e utilizando a própria cabeça como aríete, literalmente cravará o inimigo aturdido contra o tronco de uma árvore ou qualquer anteparo que resista à estocada.

Respirando fundo após este assombro, voltemos então a contemplar o conjunto da foto, marcado por três particularidades. A a primeira é a presença da minha avó. Depois estão as botas do avô, surradas e empoeiradas, o que poderia significar que ele não quis engraxá-las para a grande carnificina. À primeira vista, o terceiro pormenor tenta esconder-se como acessório desimportante, na verdade ocupando posição central na imagem: um fuzil com carregador lateral, de alavanca esférica, cuja coronha descansa no chão. E quem prestar atenção, percebe um jogo de intenções duvidosas do fotógrafo, que Roland Barthes certa vez chamou de punctum: um território minúsculo e resvaladiço, cujos elementos podem significar várias coisas ao mesmo tempo. Ao lado do cano do fuzil, com sua mão direita, a avó empunha um buquê de flores, e por mais que o olho vigilante forceje em localizar com exatidão a posição do buquê, é impossível dizer com certeza se o buquê se encontra ao lado, ou se está mesmo enfiado no cano do mosquetão. Estivesse metido no cano, e sinalizaria um protesto sutil. Não se sabe, se protesto da avó ou do casal, ou se foi mesmo ato falho - falho, mas pacifista, que é o que interessa.

E jamais sabendo da intenção do fotógrafo, nem da dos avós, o “Retrato do meu avô indo à guerra” entranhou em mim essa imagem ao mesmo tempo ambígua e simpática do meu avô materno.


Já da avó Edburga, ou Edda, para os íntimos, não posso afirmar o mesmo, pois ela não sorria naquela foto, nem em qualquer outra das que minha mãe costumava contemplar quando a saudade lhe apertava o coração. Talvez a foto tenha captado o desconsolo da avó com a partida do marido para a guerra, quiçá fosse tristeza pelo final de uma breve licença do front. Muitas dúvidas atiçam a imaginação.

A única fotografia na qual a avó Edburga sorri – e não me atrevo a dizer vó Edda, pois sempre tive dúvidas de pertencer ao seu círculo íntimo, tal a distância que seu olhar impunha entre seu corpo ausente e o meu - o único sorriso, como dizia, é o do dia de seu casamento, ocorrido catorze anos antes da fatídica guerra.

Invejo saudavelmente esta Cena de um Casamento de Hendrik e Edburga, ocorrido em 1900, a tal ponto gratificado, que ouso afirmar ter sido seu muito particular Novecento, com tantas horas de festa como foram as longas horas do grandioso filme. 

A foto é uma relíquia há muito guardada por uma de minhas primas, que certo dia resolveu compartilhá-la, pelo que muito lhe agradeci, pois não sabia que a avó Edburga fora tão bela - eis um recorte dela no destaque, ao lado de Hendrik Holler: a insofismável encarnação de Faye Dunaway, antes de sua carreira de assaltante em "Bonnie & Clyde"!

Apesar dessa estranheza em nosso relacionamento, sempre apartado por aquele mar imenso, nunca deixei de lembrar a vó Edburga com sincero respeito, pois se nomen est omen, como inferiam os romanos, alertando que a antonomásia era sempre expressão acabada do caráter e da reputação de uma pessoa, então a avó fizera jus ao significado de seu nome, que entre os antigos queria dizer “a mulher que zela por suas posses”. Posses que o espírito mal assistido do seu marido imaginara todas destruídas, mas que ela conseguira multiplicar em sua ausência. 

A partir desse dia, comecei, por assim dizer, a dar asas à foto, puxando o avô 

para fora da moldura, caminhando de mãos dadas com ele em passeios 

imaginários. Passeios na verdade roubados dos relatos de minha mãe,

resgatando seus cinco, seis anos de idade, durante andanças pausadas com o 

avô às margens do Werra, geralmente acompanhados de seu cão de caça, que 

salivava, mal divisava uma daquelas lebres, mas que no olhar justiçoso e silente

de Hendrik Holler entendia a proibição, baixando as orelhas, enfastiado.

Nessas apropriações do avô eu costumava sofrer um conflito que não tinha cura,

pois ao imaginar as paisagens dele, dava-me conta que não as conhecia. Já, 

puxando o avô para fora da moldura, era ele que não cabia na minha paisagem, 

pois seu olhar buscaria bétulas e carvalhos, só encontrando ingazeiros e 

aroeiras.                                                                                                             


Sempre invejei este pai à minha mãe, tão diferente do meu próprio, 

frequentemente escondido atrás da página aberta de um jornal.

Mas falando a verdade, eu o preferi sempre como meu avô, tão distante, intangível, talvez por isso tão mágico. Porque os pais da gente são os que nos mostram o caminho das pedras, nos preparam, como afirmam, e depois nos disciplinam e põem de castigo. Não assim os avôs. Estes são um misto de prestidigitador de plateias e feiticeiros, que aos netos ensinam a ver e a lapidar a alma Ver o que não se vê, ou se percebe com um sexto sentido. Me explico: tomam nossas mãos em suas próprias, calejadas, e saem a passear, a cada tanto interrompendo a caminhada para chamar atenção: o cochicho íntimo da brisa com as folhas das árvores, o murmurejar de um córrego narrando às pedras sua acidentada viagem, uma ave planando no azul etéreo como fosse sustentada por mão invisível – sim, dizia o avô, naqueles detalhes da vida estava sempre metida uma mão indecifrável.

A propósito, aqui cabe um aparte: Holler não era o sobrenome verdadeiro do avô Hendrik. A este fizera jus, segundo as narrativas mais infundidas, porque nascera ali no Alto Meissner, território de miscigenação entre celtas e germânicos, a cujos pés ainda jaz o Lago de Frau Holle, anos antes do nascimento de Hendrik imortalizado em um conto pelos Irmãos Grimm.

Desde tempos imemoriais, os nativos juravam volta e meia surpreender às belas ninfas que suspeitavam emergir de suas profundezas e banhar-se nuas em pelo às suas frondosas margens. O lago, assim segredavam as velhas parteiras, era o poço da iniciação da mulher em seu corpo, e também fonte de sua fecundidade. Por isso, mulher que desejasse engravidar, melhor fizesse uma oferta em moedas de ouro à entidade!

Incursionar no labirinto encantado da Senhora Holle me desviaria do curso da presente narrativa, mas dito seja que, um belo dia, o avô Hendrik escapara com um amigo para um inadvertido passeio à sua terra natal, onde beberam além dos seus fígados. A noite já andava alta quando decidiram retornar, mas não sem antes deterem-se às margens do lago, no qual Hendrik, que ainda não era meu avô, lançou algumas moedas de ouro. Quando finalmente alcançou sua casa, à cuja porta o esperavam a esposa aflita e a polícia alarmada com seu desaparecimento, com grandes olhos encharcados de aguardente da benta cereja Kirsch, Hendrik teria confessado à esposa "Edda, joguei três moedas no lago da Frau Holle – agora é com você!". Indignada, a avó cravou seus olhos zombeteiros nos dele, pois não acreditava na imaculada conceição.

Nove meses depois nasceu minha mãe.

O avô Hendrik, contou-me a prima Bilhildis, era também possuidor de um belo repertório musical que divertia seus netos, a ela e meus outros primos e primas. Quando inspirado, costumava colocá-los no colo e tocar canções ao piano. Não lembrava se de Schubert, mas certamente cirandas, e de vez em quando uma daquelas Lieder que romanceavam a paisagem, os caminhantes e um rombo no coração – ferimento, talho, tristeza que muitas vezes não tinha nome nem remédio.

Ferimento que no avô tinha nove anos de tamanho.


Depois da convocação, em agosto de 1914, despedira-se da vó Edburga na estação do trem, apinhado de milhares de jovens como ele, metidos em uniformes e armados, mas estranhamente alegres, como se partissem para uma festa. "Beber uma champanhe em Paris!", zombavam alguns grafites rabiscados com giz nas paredes dos vagões – tal era a algazarra pela ingênua crença em uma rápida expedição punitiva a oeste do Reno.

A excursão duraria quatro longos anos, durante os quais Hendrik Holler guerreou em trincheiras da Bélgica e depois da França. Trincheiras fétidas, ensopadas de barro, medo e excrementos. Intermináveis noites de inverno gélido, cortadas por estampidos, ataques com gases letais, gritos e silêncio súbito.

A morte tinha muitas faces, aprendeu Hendrik Holler. As trincheiras transmutaram-se em valas comuns de corpos mutilados e putrefatos, que não tinham conseguido alcançar Paris para um brinde ao Kaiser.

Milagrosamente, Hendrik Holler, combatente em Verdun, conseguiu sobreviver a abominável carnificina: foi preso em Armentiéres, com uma baioneta britânica apontada contra seu peito esquerdo, conduzido ao Havre e de lá embarcado à Ilha de Man, no Mar da Irlanda.

Durante outros cinco eternos anos, foi mantido prisioneiro de guerra no Knockaloe Camp, de onde enviou inspiradas cartas à esposa, que excitam qualquer editor, tal sua criatividade.

Quando em 1923 baixou do trem, em sua terra natal – não sem antes excursionar às fabulosas ruínas de Glastonburry e, panteísta convicto, extrincar a fraude do Santo Graal –, trazia no ombro um pobre bornal repleto de pão seco, que ingenuamente guardara para os seus, na Alemanha, preferindo ser consumido pela fome.

Contudo, ao ser recebido pelas fanfarras e a faixa que dizia "Bem vindo Hendrik Holler, tua cidade te saúda!", encomendadas pela esposa, perfilada com os quatro filhos, bem vestidos e nutridos, o que ainda não era meu avô caiu em profunda depressão ao cruzar o umbral da porta do hotel que com o seu e o sacrifício de Edburga conseguira inaugurar antes de partir ao front.

Perturbado, porque não queria caber em seu coração já apertado, que a esposa não apenas preservara, mas visivelmente duplicara seu patrimônio familiar. Já ele sentia-se um zero à esquerda. Um nada.

Por isso, quando tropeçou nos degraus da entrada do hotel, com o fígado encharcado e a alma lavada, dizendo à esposa que lançara três moedas de ouro ao lago da Senhora Holle, se sentia finalmente reconciliado. A partir daquela noite, me confiou Bilhildis, Hendrik e Edburga voltaram a dormir no mesmo quarto.


Escrevia-se 1925.

Sete anos depois, os camisas-pardas tomavam o poder. Este foi o assunto de uma conversa acidental com minha mãe. "E os judeus?", perguntei-lhe, "o que lhes aconteceu?", pois lembrava-me de uma rua na cidade que se chamava Judengasse - "Ruela dos judeus", escrita assim, com uma oitava de desprezo.

Esse era sempre um tema espinhoso para minha mãe e sua geração dos vencidos e muitas décadas depois ainda inconformados. Mas então ela me falou de Natan, o mercador de cavalos, homem muito simples, que vivia com sua esposa e numerosa prole numa casa da calçada oposta à do avô Hendrik.

Como dizia, em 1933 os camisas-pardas tomaram o poder,  e suas milícias, as SA, começaram a infestar os campos e as cidades. A invadir casas, destruir lojas, maltratar judeus – judeus, mas alemães!, indignava-se o avô Hendrik, em cujos dedos somados não cabia o número de camaradas judeus mortos nas trincheiras de Verdun!

Numa manhã cinzenta, Hendrik Holler viu quando Natan atravessou correndo a rua, em direção ao restaurante do hotel, mas evitando a entrada principal, para não causar espanto aos comensais engravatados e suas damas, reunidos em torno das mesas. Educado, apresentou-se na cozinha, esbaforido, a carranca pálida como a cal.

O avô entendeu tudo sem trocar palavra com o vizinho. Chamou-o ao lado, sacou do bolso um maço de cédulas de dinheiro, apanhou o lápis preso entre o crânio raspado e o lóbulo da orelha, pediu um pedaço de papel à criadagem, rabiscou algumas linhas e um endereço, e entregou o dinheiro e o bilhete a Natan, apenas dizendo: - Junte sua família e algumas coisas e caia fora, não perca tempo!

Foi o que minha mãe me contou.

Juro com a mão direita sobre a bíblia sagrada - se quiserem, sobre o alcorão - que a foto do avô indo à guerra existiu, ou existirá ainda nas mãos de algum velhaco mercador de antiguidades.

Se meu relato é a única versão plausível para minha existência - pois Hendrik Holler engravidou minha avó – admito não ter certeza de nenhum desses episódios, pois todos me foram narrados por vias duvidosas.


Fotos: divulgação

15 maio 2013

Frederico Füllgraf - Тула (Tulá)


Crônica
Na madrugada do Ano Novo 1945-46, um pequeno grupo de prisioneiros de guerra do Campo 323, localizado duzentos quilômetros a sudeste de Moscou, escapou. Eram alemães, um deles, jovem oficial da SS, com vinte e quatro anos de idade, que sobrevivera as invasões da Holanda, França, depois da Romênia, Iugoslávia, e finalmente da Ucrânia. Como integrante da LSSAH, a famigerada “Leibstandarte [Guarda Pessoal] Adolf Hitler”, tinha enfrentado o exército soviético em Kursk e Charkiv, de onde foi desmobilizado e, numa operação blitz, levado às pressas para a Normandia, para defender o litoral francês contra o desembarque dos Aliados.

Quando eu era criança, o conheci em carne e osso: era um homem bem apessoado, de cabelos pretos, 1,80 de altura, porte atlético, e cujo espírito reservado não escondia certa jovialidade. Nas frestas das conversas dos adultos, ouvidas por nós, crianças, infiltrara-se a informação que fora preso nos últimos dias da guerra, depois da queda da “fortaleza de Breslau”, abduzido à União Soviética e internado num campo de trabalhos forçados, de onde tinha conseguido fugir. Só quarenta anos depois consegui juntar o quebra-cabeças daquela fuga, quero dizer: quando li, estarrecido, seu depoimento perante um tribunal alemão de des-nazificação, no qual o nome "Tula" estava associado ao Campo 323 e me mirava como uma esfinge desafiadora. E - santo deus! - foi quando voltou a faiscar diante de meus olhos, aquela estrela vermelha, que Albert George costumava esconder numa caixa de charutos vazia, e que tanto me enfeitiçava quando eu tinha apenas cinco anos de idade.


Albert George é o nome do protagonista do romance, “O caminho de Tula”, que estou escrevendo a soldo de uma editora brasileira. Sua narrativa tenta desvendar a motivação de um jovem escoteiro da República de Weimar que adere à Juventude Hitlerista, de onde egressa como voluntário da SS, participa das mais sangrentas batalhas da 2ª. Guerra Mundial, é absolvido pela Justiça do pós-guerra, depois obrigado a atuar como informante do serviço de inteligência militar americano na Alemanha (sim, ele conhecia cada árvore de sua trilha de três mil quilômetros percorridos a pé em dez meses) e que, finalmente, decide emigrar para o Brasil, onde começa vida nova, estabelecendo família.

Minha relação com a cidade recôndita começou no início de 2010, quando recebi os autos da sentença judicial de 1948, nos quais A. George fala de sua prisão em Tula, e comecei a investigar as circunstâncias de sua fuga: como fora possível escapar de um campo soviético tão bem guardado? Algum russo os ajudara, ou os alemães mataram seus guardas? Comecei a preparar uma viagem de pesquisas em Tula, mas minha amiga, Terezka, de São Petersburgo, me advertiu, o que o pesquisador russo, Adam, confirmaria um ano mais tarde: "sobre as atrocidades nazistas você terá sempre os arquivos russos abertos, mas sobre a fuga de alemães não vão lhe contar nada – setenta anos depois continua tabu!".

Quando descobri as imagens deste exuberante fotógrafo russo, Viktor Professor, das ruínas de uma imponente igreja, nos arredores de Tula, me perguntei, onde aqueles fugitivos alemães do Campo 323 se teriam escondido nos primeiros dias em território inimigo, e imaginei que estas ruínas poderiam ter-lhes servido de abrigo.

Esta é a encruzilhada frequente na Literatura, que desafia a criatividade do autor. Decidi então pesquisar à distância e, para minha surpresa, descobri registros fantásticos sobre Tula. Sua etimologia, antes de mais nada, é de origem báltica, como desvendou o Prof. E. M. Pospelov em sua nomenclatura toponímica, “Geograficheskie nazvaniya mira”, e significa “lugar escondido, inacessível´”... - metáfora que vestiu como uma luva minhas próprias dificuldades diante do mutismo das fontes de informação procuradas.

Na moderna historiografia russa, Tula é venerada como “cidade heróica”, porque não resta dúvida: não fosse a tenaz resistência das milícias da fábrica de armas, Nagant, e das tropas soviéticas retiradas da longínqua Vladivostock, e os alemães teriam alcançado Moscou pelo Sul.

E nesta dobra das páginas, a narrativa do romance vincula outras duas fugas de Tula à escapada dos soldados alemães do Campo 323: a retirada, no final de 1941, do general alemão, Guderian, que havia tomado Tula, e a escapada do seu mais ilustre morador, Lev Nikoláievich Tolstói, trinta anos antes – Guderian fugindo da contra-ofensiva russa e, numa irônica inversão de papéis, Tolstói fugindo de uma alemã; Sonja Andreievna Bers, sua esposa.

A única vítima fatal destas três fugas foi Tolstói, cujo coração extenuado parou de bater quando ele alcançava a pequena estação ferroviária de Astapovo, no dia 20 de novembro de 1910.

Há duas frases de Tolstói que merecem estar penduradas na porta de toda casa: a primeira diz, “Enquanto houver matadouros, haverá campos de guerra”, e a segunda, “A felicidade é estar com a natureza, contemplar a natureza e conversar com ela”. Há quem queira deduzir que na primeira frase Tolstói inverteu a ordem dos fatores, mas é dedução equivocada, porque com ela o escritor vegetariano se opunha ao sacrifício dos animais. Com a segunda, Tolstói definitivamente alcançara o requinte da sabedoria.

Quando o romance estiver nas livrarias, quem sabe farei minha peregrinação a Tula. Então visitarei Yasnaya Polyana, a chácara de Tolstói tomada por Guderian e transformada em quartel-general de seus blindados, a quem Molotov acusara de vandalismo, mas ao que parece, foi uma mentira a serviço da propaganda de guerra. Difícil imaginar que o patrimônio de Tolstói fora pilhado pelos alemães, porque naqueles dias, antes da chegada de Guderian, o então jornalista do Exército Vermelho, Vasily Grosman, testemunhou a embalagem e a transferência de todos os pertences em Yasnaya para outro destino, considerado mais seguro. Depois, ao que tudo indica, Guderian também manteve intacta a propriedade de Tolstói, no coração de uma União Soviética de resto devastada pela Blitzkrieg nazista. É que a História não se escreve por linhas retas, muito menos do discurso ideológico linear, e é nas frestas das contradições que o escritor nutre suas estórias.

Então me deixarei passear por um sítio sagrado, flanando pelas trilhas escoltadas por bétulas, de Lev Nikoláievich.

Mas também vou a Tula por um outro motivo: há um livro enterrado em algum recanto deste lugar arcano. São os originais de “Babi Yar”, o massacre nazista dos 33 mil judeus de Kiev, que Anatoly Kusnetzov escondeu depois de fotografá-los, para então fugir da Rússia. 

Esta foi a quarta fuga de Tula.

Fotos: Viktor Professor; divulgação

14 fevereiro 2013

Frederico Füllgraf - "Esqueceram" de Dona Aracy, a salvadora de judeus

Aracy e João Guimarães Rosa, Hamburgo, 1939


Carta Aberta ao Paraná
– Via Coluna Aroldo Murá

O que segue, é uma triste evocação do que o poeta e dramaturgo alemão, de origem dinamarquesa, Friedrich Hebbel, dizia da insuficência e parvidade humanas: "Toda... mediocridade na poesia acarreta hipocrisia no caráter e na vida."

A rigor, a descrição do episódio caía como luva sobre a cerimônia de distinções a personalidades do Paraná com a medalha da Araucária, ocorrida em dezembro passado, que acompanhei em sua coluna, mas daqui, da orla do Pacífico. Decidi, então, esperar a poeira baixar e, principalmente, não afugentar os good spirits, pois era dia de festa e você, um dos galardoados. Nesse meio tempo, renasceu o Senhor, nos quatro cantos do planeta acabam de esbaldar-se em bacanais dionisíacos e, fiel aos dislikes da Quaresma, já estando prestes a crucificá-Lo de novo, mando-lhe minha estocada no imperdoável.

Faltou uma figura humana insubstituível naquele pódio de bravos paranaenses, Aroldo, que, como você, foram vestidos pelo governador de turno, com a Comenda da Araucária. Faltou Aracy Moebius Tess de Carvalho, “ Ara”, a esposa do mestre Guimarães Rosa, que lhe teria arrancado lágrimas de ternura. Mas não poderia ter faltado sob qualquer pretexto, por isso, há exatos dois (!) anos, sugeri ao governo do Paraná, que não perdesse tempo em trazê-la a Curitiba e homenageá-la como a rara e emblemática Heroína, mundo afora conhecida como o “Anjo de Hamburgo”. Contudo, Curitiba traz nas entranhas a maldição, não dos anjos caídos, que são estóicos, mas dos santos pequenos da mediaria, sempre de costas para os Tempos e a História, deformação congênita que seus administradores tentam encobrir com ícones ladinos de capital de muitas mentiras; “primeiro-mundistas”, “europeias”, “ecológicas”, o escambau.

Como você sabe, em 2010 a editora Record me encomendara o romance “O Caminho de Tula”, narrativa sobre o pano de fundo histórico do nazismo, que se desloca entre a Alemanha, a União Soviética e o Brasil, e temperada pelo olhar de um jovem que após a morte de seu pai, descobre sua verdadeira trajetória, com o acesso aos autos de um processo de “des-nazificação”, de 1948. O livro, embora em nada datado, exigiu-me pesquisa que editor nenhum vai me pagar, e umas das tramas paralelas brinca com a estória de um personagem algo mítico, que segundo o próprio Guimarães Rosa, realizou a “mãe de todas as traduções”, para o Alemão, do clássico “Grandes Sertões. Veredas”: Curt Meyer-Clason.

Conheci-o em 1975, eu, estudante de Cinema em Berlim, “visitando” a “Revolução dos Cravos”, ele, então diretor do Instituto Goethe, em Lisboa. Em 1976, a Rádio SFB, de Berlim, enviou-me novamente a Lisboa, desta vez para gravar um programa sobre o papel dos escritores durante a derrubada do fascismo. O programa foi ao ar com o título “Motim no Café Lusitânia”, pontilhado de longas entrevistas com três Josés, todos já saudosos: o imperdível José Cardoso Pires (“O Defilm”), o titânico poeta José Gomes Ferreira, e José Saramago, ainda algo desconhecido, a quem entrevistei em sua própria casa. Os contatos e a articulação, todos, me foram auspiciados por Meyer-Clason, que, como tradutor genial de “Cem anos de solidão”, de García Márquez, estava traduzindo para o Alemão e divulgando Europa afora  a poderosa plêiade de escritores portugueses censurados pela ditadura fascista – com esses repentes de solidariedade aos “comunistas”, estaria Mayer-Clason exorcizando seus próprios fantasmas?

Mas o que essas tramas paralelas da ficção têm a ver com a figura de Aracy, como filha de pai brasileiro e mãe alemã, nascida em 1908, em Rio Negro? Ocorre que a História real acabou unindo indissoluvelmente os caminhos de Aracy e de Meyer-Clason: ela, fugindo ao preconceito da mal vista “mulher separada”, abandonando o Brasil em 1935, com destino a Hamburgo, e, em sentido inverso, Meyer-Clason, deixando o norte da Alemanha no final da década de 1930, para fixar-se no Brasil como corretor de commodities brasileiros e argentinos, que exportava para a Alemanha. Até que, no início da Segunda Guerra, a polícia política de Getúlio Vargas flagrou Meyer-Clason em atividade ilícita: ele se desempenhava como agente da espionagem alemã! Atividade nunca provada em seus detalhes, mas que lhe custou cinco anos em um campo de concentração na Ilha Grande, Rio de Janeiro, onde outro intelectual alemão – homossexual e esquerdista, a policia de Filinto Müller não fazia distinção entre seguidores e opositores do nazismo, prendia todos! – o despertou para a Literatura. Em “Äquator”(Debaixo do Equador, 1986), M.Clason narra sua metamorfose, de corretor de cereais para amante da Literatura, e de suposto agente nazista, para apaixonado pelo Brasil; não guardara rancores. Em 1995, publica “Die große Insel“ [A Ilha Grande], como indifarçadas memórias do cárcere, elégico título do romance de Graciliano Ramos, outro “hóspede” da grande ilha, libertado em 1937.

E Aracy, o que fazia? Morando com uma tia alemã, conseguira emprego como secretária biligue no Consulado Geral do Brasil em Hamburgo. A famigerada “Noite dos Cristais” desencadeara o progrom anti-semita dos sicários de Hitler, e a despolitizada, mas nada boba, Aracy, não teve dúvidas: começou a ajudar os judeus que batiam à porta do consulado, em busca de um visto para o Brasil. Sua “ajuda” tinha um pequeno problema: o cônsul brasileiro era simpatizante dos nazistas e o Itamaraty seguia à risca a Circular Secreta 1.127, que proibia a concessão de vistos a "semitas" . A Aracy ocorreu um ardil: recebia os judeus na ausência do cônsul e contrabandeava os formulários dos vistos para a pilha da papelada a assinar pelo cônsul, sempre faltando poucos minutos para encerramento do expediente; pelo qual o cônsul já ansiava, desatento. À atividade subversiva veio somar-se o novo cônsul adjunto que chegara a Hamburgo em 1938, logo se apaixonara pela bela secretária com sotaque de “lêite quênte”, e abandonara sua esposa, deixada no Brasil: João Guimarães Rosa. Como a maioria de seus colegas do Itamaraty, escritor nas horas vagas.

Juntos, Aracy e o Rosa acabaram salvando a vida de dezenas (há quem estime, centenas) de judeus alemães, que então emigraram ao Brasil. Única mulher a ter seu nome escrito, em 1982, no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel, alguém já disse que a historiografia brasileira não contempla esta mulher, conhecida pela comunidade judaica por “Anjo de Hamburgo”, lembrada oportuna, mas tardiamente, pela Presidente Dilma Rousseff em evento ocorrido no final de 2012.

Dona Aracy é uma personagem comovente da História, mas também da Literatura por excelência, pois encarna exemplarmente a tríade espiritual da heroína de mil faces: destemor, aventura e romance. Heroína que não perdera o hábito, depois de retornar ao Brasil e perder o Rosa: vivendo no apartamento do casal no Rio, em 1968, teve a pachorra de nele esconder o compositor Geraldo Vandré, perseguido pela ditadura por causa de “Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores)”. Aracy era mesmo uma doida, na melhor acepção do termo: no mesmo prédio moravam vários oficiais do exército, mas enquanto a repressão, desorientada, caçava Vandré nas ruas, este compunha, incólume, no sofá de Aracy. Foi o Dr. Eduardo Tess Filho, seu neto, que levou Vandré para São Paulo numa Kombi. E de lá para o exílio.

Minha advertência ao governo Beto Richa, como você e seus leitores podem inferir, foi feita mediante Ofício de 8 de fevereiro de 2011, entregue ao então Secretário da Cultura, Paulino Viapiana (vide anexo), através da Diretora Geral da SEC, Valéria Marques Teixeira, que então me explicou, que a SEC com muita honra acolhia e intermediaria, mas que o Palácio Iguaçu era o destinarário formal da sugestão.

Escrevíamos o início de fevereiro. Em São Paulo, Dona Aracy beirava os 103 anos, em Munique, Meyer-Clason, nascido em 1910, os 101 anos de idade.

Avisei ao Dr. Eduardo Tess Filho, neto de Dona Aracy, minha sugestão e o deixei de sobreaviso para a resposta do governo Richa. Passaram-se semanas, quando recebi um telefonema de uma funcionária subalterna da SEC, sugerindo que a Federação Israelita do Paraná “encabeçasse” o evento e avisando que me chamariam da federação. Reagi estupefato: obviamente, como representação da etnia mais vilipendiada em todo o séc. XX, a federação deveria participar do evento, sentada em cadeira de honra. Vaticinei: por que será que os judeus do Paraná tinham esquecido Dona Aracy. Me perguntei: será que um cidadão independente tem que pedir “autorização” para entidade judaica, para homenagear um amigo dos judeus? Por que essa competição imbecil por um assunto da máxima seriedade? Questionamentos, todos, que, ainda por cima, poderiam detonar sobre minha cabeça - na qual perdura a memória de uma avó judia! - a tão desgastada e ridícula borduna do “anti-semitismo”, para quem ousa criticar Israel ou as associaçõs judaicas, mundo afora.

Trocado em miúdos: a federação jamais ligou, a SEC se esquivou, a Prefeitura de Rio Negro pediu “um tempo” (um tempo?)... – enfim, o Paraná “esqueceu” da grande mulher, a provinciana de Rio Negro, que tecera fios da Humanidade, pela primeira vez, unindo pelo cordão umbelical, o Paraná ao ventre da História Universal. Mas para isso oferecendo sua própria cabeça a prêmio.

Dona Aracy morreu no mês seguinte, março de 2011, como amigo até o último suspiro do Rosa, Meyer-Clason passou em janeiro de 2012.

Indigna-me essa mediocridade de governo e instituições do Paraná.
Indigna-me a preguiça e a indiferença do servidor público.
Indigna-me terem “esquecido” de Aracy.
Indigna-me o pouco caso, a obstrução, a agressão à memória coletiva.
Por isso, um filme, tão logo seja possível.

Fotos: ilustração

03 julho 2012

Frederico Füllgraf - Sibylle Berg, a corrosiva colunista de Der Spiegel



Spiegel Online - http://www.spiegel.de/ - é provavelmente a versão digital de maior sucesso da imprensa escrita alemã, lida por jornalistas, brokers das bolsas e também por incansáveis combatentes ao odiado capitalismo, como Margot Honnecker, a quase nonagenária viúva e ex-Primeira Dama da RDA, outrora anfitriã de perseguidos pela ditadura Pinochet, hoje ironicamente exilada no Chile de Sebastián Piñera.

Site a toda hora do dia atualizado com acribia, e uma das plataformas da mais feroz oposição às desandanças da primeira-ministra, Angela Merkel, de segunda a domingo, em S.P.O.N, a Spiegel Online também disponibiliza as colunas de seis autores, das quais se destaca a de Jacob Augstein - filho adotivo e um dos herdeiros de Rudolf Augstein, fundador do Grupo Der Spiegel, e dono do semanário Der Freitag e da editora Rogner & Bernard, de Berlim.

Im Zweifel, links [“em caso de dúvida, pela esquerda”], a coluna de Augstein é talvez a única voz efetivamente assumida como de esquerda lato sensu, se teimarmos que no SPD - fundado por Karl Marx, transformado no partido das reformas de 1968 por Willy Brandt, mas cuja liderança atual votou a favor das leis neoliberais do governo Angela Merkel, de flexibilização do trabalho, de resto também empurradas goela abaixo da França pelo PS de François Hollande - sobreviva ainda qualquer nesga da revolta, como o fantasma anunciado por Karl Marx no Manifesto do Partido Comunista.

No mais, S.P.O.N. lê-se como muro das lamentações, com choradeira  de um punhado de autores de barriga cheia, pertencentes a uma turma  de carpideiras alemãs que eu chamaria de “me ajude, não sei o que sou!”, e que parecem reencarnar o "Homem sem Qualidades", de Robert Musil: têm vergonha de se sentirem alemães, mobilizam reações paranóicas aos criticos de Israel (caso recente do Nobel de Literatura Günter Grass), são inseguros à direita e à esquerda, mas patrulham colegas e intelectuais, país afora, sempre em busca de alguma “pista” ou estigma do que não se encaixe em sua camisa de força, pobre e imbecil, do “politicamente correto” (em caso de dúvida, islamofóbicos).

E eis que então irrompe em cena, às sextas-feiras, a coluna de Sibylle Berg -http://www.spiegel.de/thema/spon_berg/-, um pé-de-vento impregnado de frescor, vitalidade e ironia corrosiva, sobre tema livre, mas obrigatoriamente derivado do cotidiano do ser humano, seja às margens do lago suíço, onde reside Sibylle, ou da Zona Leste de São Paulo.

Em “Pergunte à Dona Sibylle”, a escritora e dramaturga alemã - nascida em 1962 em Weimar, na ex-RDA, emigrada para a Alemanha Ocidental em 1984, de onde mudou-se para a Suíça - destila seu sarcasmo, por vezes confundido com implacável cinismo. Cinismo, contudo, é atitude prima de uma bronca irreconciliável do indivíduo com o mundo, sentimento de impotência compensado pela arrogância, mas é tudo o que Berg não preconiza, como se depreende de sua coluna mais recente, que lhe ofereci traduzir neste ultimo final de semana.

Autora de intensa produção ficcional, toda inédita em Português - como Ein paar Leute suchen das Glück und lachen sich tot (Algumas pessoas buscam a felicidade e morrem de dar risada, 1997), Sex II (1998) Amerika (1999), Gold. (2000) Das Unerfreuliche zuerst. Herrengeschichten (Primeiro, as más notícias. Estorias de senhores, 2001), Ende gut (Final feliz, 2004), Habe ich dir eigentlich schon erzählt ... – Ein Märchen für alle (A propósito: já te falei? Um conto para todos, 2006), Die Fahrt (A viagem, 2007), Der Mann schläft (O homem dorme, 2009) e Vielen Dank für das Leben (Muito obrigado pela vida, 2012) – com algumas adaptações ao teatro e prêmios literários amealhados na Alemanha, Sibylle Berg encarna a geração etariamente nem tão jovem (ela tem mais de 40 anos) do que foram a vinte anos mais velha Doris Dörrie e seus livros e filmes dos anos 1980 a 1990, com um olhar desconfiado sobre a realidade alemã, e um feminismo perfumado, com uma mão de mulher, ora escondida, ora oferecida com ternura a esse gênero tão inacessível, chamado homem. Porque apesar das perdas, a dois vive-se melhor, é o que sibila seu romance, “ O homem dorme”.

O que reverbera na crônica que traduzi, “A partir de agora governa a Sra. Berg”, poderia ser resumido como “notícias do front” – o front capitalista (este sim, cínico!) da quebradeira dos bancos, da insolvência dos governos, dos cortes orçamentários, do desemprego e do desespero social. Um caleidoscópio que Berg tenta inverter, chacoalhando o visor até os estilhaços do cotidiano obsceno se adaptarem a um cenário depurado dos agentes predadores e despojado de crenças tidas como religiosas – “não precisamos de crescimento, precisamos de tranquilidade”.

Com vocês, Sibylle Berg.

S.P.O.N. – Pergunte à Dona Sibila A partir de agora, governa a Sra. Berg
Coluna de Sibylle Berg – DER SPIEGEL ONLINE
Trad. Frederico Füllgraf

Uma nova ordem tem que ser imposta ao mundo, imediatamente. Eis algumas medidas para driblar o egoísmo e a imbecilidade do Homo Sapiens. Por exemplo: fechar as bolsas, estatizar os bancos, perdoar as dívidas. Acha isso ingênuo? Então reflita sobre alguma coisa melhor.

Que os seres humanos são umas coisinhas egoístas, glutonas, que, quando tocadas por alguma iluminação, não dispõe sequer da virtude de mobilizar generosidade e compreensão para com seus semelhantes, isso é do conhecimento público. O que surpreenderá a maioria dos meus seguidores nesta página será saber que fui incumbida da missão de reordenar o mundo. Missão do mais alto nível. Os do andar de cima – Bilderberg, o Clube de Roma, as „loggias“, etc. – chegaram a uma encruzilhada e não sabem quê rumo tomar.

Com muita inquietação, contemplam a desagregação do mundo, tal qual o conhecíamos no Ocidente. Aquele mundinho com as quatro estações do ano, apartamentos aquecidos contra o frio e financiamento da casa própria, está virando alguma coisa que ninguém mais consegue controlar. O jogo se tornou confuso: há por um lado os bilionários obscenos, que sequer, como nos velhos tempos, geram empregos para continuar a explorar as pessoas. Por outro, há alterações climáticas, a extinção de espécies e as guerras religiosas.
A regressão dos indivíduos ao comportamento agressivo, devido à finitude dos recursos naturais, a superpopulação, o barulho, a contaminação dos rios, e à água, que vai se esvaindo... – ora, nem me fale, estou apenas fazendo a minha parte!

A nova regulamentação que me ocorre terá vigência a partir da próxima semana, até lá tenho alguns detalhes para ajustar. Graças ao meu juízo, amplo e abrangente, coloquei no papel algumas mudanças fundamentais sobre o gerenciamento do mundo. É como se diz, mas sabendo que hoje em dia não se usa mais papel algum.

Somos um punhado de pequenos idiotas egoístas

Todas as dívidas, pessoais ou públicas, serão zeradas, será impresso dinheiro novo; com lastro em ouro e prata, como nos velhos bons tempos. E o tal Euro também deixará de existir. As bolsas de valores serão fechadas imediatamente. As ações serão desvalorizadas. Todos os governos serão depostos. Com minha anuência, todos os países formarão novas administrações integradas exclusivamente por peritos: cientistas, artistas, médicos. As funções serão distribuídas entre mulheres, homens, incapacitados, homossexuais, minorias étnicas e religiosas – uma coisa justa.

Não haverá cota especial para mulheres, porque não mais haverá empresas com cotações nas bolsas. 

Cessará toda e qualquer pretensão estrangeira sobre as matérias-primas de um país. Todos os países gozarão de hegemonia sobre seus próprios recursos, e apenas a eles pertencerão suas empresas, terras e edificações. Bancos, empresas produtoras de alimentos, o sistema de transporte, a saúde e as escolas serão estatizadas. Executivos qualificados regozijar-se-ão de seus superempregos na administração pública e por terem escapado ao desemprego, devido ao fechamento das bolsas. Não haverá salário mínimo. O crescimento será proibido- não precisamos de crescimento, mas de tranquilidade.

É do livre arbítrio de cada um, escolher sua religião, por ser coisa do foro íntimo. A igualdade prevalecerá para todas as pessoas. Cada qual poderá casar-se com quem quiser, e filhos poderão ser gerados após o exame, por uma junta médica de amáveis neurologistas, do estado mental dos respectivos interessados na geração. Depois de autorizados, estes filhos poderão ser adotados ou admitidos para criação.

As leis de proteção do inquilinato serão duras, implacáveis, e agressões ao meio ambiente serão penalizadas com a expropriação da respectiva empresa. Todas as drogas serão legalizadas, como também toda sorte de auxílio à morte. Aborto, fumar ou não fumar, praticar, ou não, esportes – pois que cada um faça o que achar melhor.

Eu e as demais pessoas não passamos de míseros idiotas egoístas, mas seria triste abrir mão de nossa espécie, despedir-se do mundo. Este mundo que nos aninha em seus poucos crepúsculos cálidos, quando contemplamos, sentados sob o poente, como o sol teima em romper essas brumas à la Blade Runner, e ainda sentimos cheiro de grama. É provável que minha declaração de princípios suscite muitas objeções, e os Srs. tenham ideias muito melhores – mas digam lá, quais?

09 outubro 2010

Sabine Lange - O molho de chaves (excertos) 2a. parte: A virada



Trad. F.Füllgraf

Então chegou a época em que deveria acontecer a Wende; a virada.
O dia esperado, em que aquela grade seria alçada e no qual as leoas poderiam finalmente se juntar. O dia em que fosse servido o bolo, o grande bolo, pelo qual a fome já tinha deixado para trás a própria fome, desde tempos imemoriais desembocando num grande vale branco, feito de neve. Aquela pista, muito comprida, que todos pretendiam percorrer, mas que alguém, tantos anos atrás, havia dobrado, inflectido para baixo, feita calha de chuva, de repente aquela baliza foi levantada – vejam!
                                      
Eram os dias em que as eclusas deveriam ser abertas, para que se esparramassem as águas represadas e provocassem algum acontecimento. De preferência, tudo. Até mesmo os diminutos regatos, que costumavam correr e desaparecer sob as pequenas pedras seriam chupadas de volta. O que era isso?

Finalmente estreara um grande filme; um filme abrangente, total. Um filme projetado sobre as águas. E ele deixa afundar os barcos, para que as pessoas também pudessem vê-lo com a perspectiva invertida, de baixo para cima. Da direita para a esquerda. 

A notícia da virada chegava de todos os quadrantes, e eu estava sentada no meio de tudo isso. No olho do furacão. Eu assistia TV e intuí um acontecimento insuperável. Intui que agora meus olhos transbordariam. E mais do que isso. Não conseguia acreditar. O que eu via, crescia feito inchaço de uma bolha de ferida prestes a estourar. Para qual lado você quer saltar.

Mas que gentileza - os dentes já tinham apodrecido e caído das gengivas e, finalmente, alguém se lembrava de trazer a bandeja com as castanhas!...
Agora eu sabia que alguma coisa estava para acontecer, que eu jamais esquecerei em minha vida. Espere - um comunicado! Para todos, por favor! Damas e cavalheiros, ninguém pediu que morressem! Que se torturassem à toa! Tudo tinha sido PREMEDITADO. Tivessem exercitado a paciência... Porque ainda vão precisar de tudo. Juventude, beleza, e sua saúde. Calma, porque agora chegou a hora.

Aquilo era um negócio de bom tamanho para uma leitura ao vivo, de tão inacreditável. Mirei para a TV como John sempre olhava. Com aquela mirada de Gäntschow. Como se visse alguma coisa que me chamasse atenção. John, chamei-o, venha aqui um pouquinho. E John veio da cozinha, calçando pantufas. Ele trazia enrolada uma fatia de Presskopf.4 Quéquihá? – ele grunhiu.

Ele também está recebendo bilhetes, exclamei. Veja - bilhetes, ele também! Tirou do bolso da calça! E esbugalhei os olhos. E fiquei escutando. E não conseguia acreditar.

Então berrei. Aproximei-me do televisor, me abaixei e imprequei contra a imagem na tela. Leia direito, seu babaca! Por acaso não sabe ler? Ali não está escrito, ´a partir de hoje, todo mundo pode atravessar a fronteira´, nem a partir de mais tarde, mas a partir de agora, já... – mas será possível!
Ali está escrito o seguinte: Na madrugada que passou não toquei punheta.
E também está escrito: Seres humanos não valem nada. É o que está escrito.

Deitei-me nos braços de John e chorei. E disse, John, agora podemos ir até nossa avó. John apanhou a garrafa de Gamza – ei, que vinho porreta é esse que vocês têm aí, e, a propósito, eu acho vocês umas pessoas bacanas. Todos vocês. E John derramou a metade do vinho que restava na garrafa sobre o televisor.

Eram as 18:53 do dia 9 de novembro de 1989, e mal tínhamos começado a jantar. Uma semana depois atravessei o muro, no Checkpoint Charlie. 5 Fazia um dia de frio úmido e eu sentia arrepios nas pernas. Eu vinha acompanhada de um amigo, e achei que as casas tinham aspecto imundo, de tão pichadas. Fiquei desapontada, com enorme estranhamento. Tínhamos sido convidados para o café da manhã na casa de amigos, em Kreuzberg 6; amigos que há muitos anos tinham escapado ao Ocidente. Quando me despedi, furtivamente apanhei uma banana do prato, e quando os amigos já tinham alcançado a porta, apanhei mais uma. Motivo pelo qual durante todo o caminho da volta me torturou a consciência pesada.

Minha primeira viagem me levou à Suécia. Eu desejava tanto subir a uma balsa branca, dessas que eu tinha visto, olhando desde Arkona! E que se podia ver também desde Königsstuhl, em Sassnitz.  Quando me encontrei no convés do ferry, achei estar vendo Arkona, e também Königsstuhl, em Sassnitz..

Minha segunda viagem foi para Edinburgh, onde fui visitar uma amiga que eu conhecia do Acervo, uma professora universitária, que eu admiro muito. Foi uma viagem maravilhosa, e nos perdemos em conversas gostosas. Achei Edinburgh uma cidade encantadora e os Highlands me impressionaram para tirar o fôlego.
Quando retornei, meu periquito australiano estava morrendo. Eu o entregara à guarda de amigos. Eles eram músicos. Quando cheguei para apanhar minha ave, eles estavam ensaiando.

Tocavam um ritmo afogueado, do gênero Klezmer 7. Durante o ensaio tinham colocado um pano em cima da gaiola. Quando levantei o pano, o periquito estrebuchava, esticado na areia do fundo da gaiola. Tinham matado o periquito de tanta música! Olhei para a ave e pensei: se eu pudesse sentir o que ela está sentindo! Depois cavei uma pequena cova em frente da casa, debaixo de uma roseira. Levei dias sem conseguir me consolar. Eu não sabia o quanto estivera ligada àquele pássaro.

Até hoje consigo sentir o peso da leve vibração em meu dedo indicador quando ele vinha voando e pousava em minha mão. Mas do que é que eu estou falando! Talvez eu quisesse dizer que aos poucos minhas viagens foram resvalando para o esquecimento, mas que o pequeno pássaro continua a voar; ele sempre volta a levantar vôo em meus pensamentos.

Nunca mais voltei a pôr os pés na igreja. O pastor fora transferido de paróquia. Por causa da bebedeira. Por causa de bebedeira? Eu sempre tive saudades das sonoridades do órgão. Toccatas e Fugas. Na verdade ao órgão nunca consegui tocar a contento aquelas músicas, mas executei-as sempre de forma rasante e com paixão. Um leigo em música jamais teria notado qualquer deslize. Eu chegava a preencher a igreja toda com o som das minhas execuções. Eram belos aqueles momentos em que eu tocava e vibrava, misturada aos sons. Jamais esquecerei o reverendo que me entregou a chave da igreja e me ajudou a alojar um usuário do Acervo Fallada, que viera do Ocidente, mas sem credenciamento algum.

Só agora fiquei sabendo que o cômodo, que já servira como sala de aulas de catecismo, tinha sido uma lavanderia, antigamente. Na verdade era uma genuína propriedade rural que, mais de cem anos atrás, a Igreja tinha comprado para instalar a sede de sua paróquia. Disseram-me ainda que a lavanderia da fazenda, que era a maior das salas, era geminada com a cocheira dos cavalos.

Mas agora me lembro de uma terceira viagem que fiz. Fui à Suíça. Passei por cidades como Küsnacht, atravessei Chur. Eu queria visitar a mãe de John. Ela morava numa mansão às margens do Lago Lugano. Todos os seus aposentos estavam repletos de peças de arte. As salas tinham aspecto amortecido, com tapeçaria alta, móveis em estilos barroco e Jugendstil. Mas não tenho certeza disso. Ela possuía um piano de cauda, o que imediatamente me ligou a ela. Ela era bonita, elegante e jovial. E era loquaz; loquaz de um modo quase maternal. Mas não consegui gostar dela – por que é que ela o deixara andar por aí daquele jeito, com aquela calça surrada e as sandálias mais do que gastas? Por que não lhe deu o que ele precisava, quando viajava para uma cidade desconhecida. E para país estrangeiro.


* Sabine Lange – poeta e escritora da ex-RDA, que de meados dos anos 1980 até o final dos anos 1990, dirigiu o Acervo Fallada, do escritor Hans Fallada, morto em 1947, autor, entre outros, do romance “Jeder stirbt für sich allein”, a ser lançado no Brasil em janeiro de 2011, sob o título “Sós, em Berlim”, pela Editora Record. A primeira edição completa da novela “Schlüsselbund” (O molho de chaves) foi publicada na Suécia pela Ed. Rugerup.

Notas

1 – Polícia de Segurança de Estado (MfS - Ministerium für Staatssicherheit), mais conhecida pela abreviatura StaSi, a polícia política da ex-RDA. Como lembrarão muitos cinéfilos que viram o filme “Das Leben der Anderen” (A vida dos outros, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007), em seus 40 anos de existência, com seus 200 mil agentes e uma rede de mais de 150 mil informantes “voluntários” (alcaguetes, dedos-duros), para uma população que não passava de 18 milhões (um agente para cada 60 habitantes), esta polícia, espécie de Gestapo do Socialismo Real, bisbilhotou, achacou, desestabilizou e arruinou a vida de dezenas de milhares, e matando algumas dezenas de cidadãos na ex-RDA.

2 – Kätelkuhl – cava gigantesca com conjunto de lagos, na região de Feldberg, Estado de Mecklenburg, Alemanha.

3 - Gäntschow – alusão ao personagem Johannes Gäntschow, protagonista do romance “Wir hatten mal ein Kind” (Uma vez tivemos um filho), de Hans Fallada.

4-  Presskopf – prato típico na ex-RDA, espécie de “cabeça de porco no mocotó”, na verdade tipo de lingüiça barata.

5-  Checkpoint Charlie – antigo posto de controle norte-americano, usado como passagem pelo Muro de Berlim, desativado, mas tornado atrativo turístico após a queda do muro.

5 – Kreuzberg – antigo bairro de classe média e de operários (nos pátios dos fundos), na Berlim entre-guerras, que após a divisão da cidade, em 1961, permaneceu no setor ocidental, cujas ruas mais importantes foram então todas cortadas pela construção do muro. Na década de 1960, com seus prédios e casarões malcuidados e semi-arruinados, Kreuzberg era um bairro com imóveis baratos para compra e aluguel, atraindo grande número de trabalhadores turcos, com suas famílias, além de estudantes e intelectuais, cujos bares, restaurantes e comércio ao ar livre lhe emprestaram um toque de “Quartier Latin da Prússia”. Após a queda do muro, Kreuzberg retornou ao antigo centro geográfico da capital, tornando-se território de especulação imobiliária voraz, e atraindo ao cenário novos moradores, yuppies endinheirados, mas também gente como o cineasta Wim Wenders e sua produtora, Road Movies.

7-  Klezmer – tradicional gênero musical iídiche.