18 dezembro 2016

Frederico Füllgraf - A Nebulosa de Magalhães - Um mini-conto cósmico


Miniconto

Depois que o fidalgo Fernão, a quem em terras castelhanas chamavam de Hernán, descobriu o Estreito no calcanhar do Novo Mundo, que leva seu nome, aprumou sua nau e tomou o rumo das Ilhas Molucas, das quais, sempre teimosamente, quis tomar posse em nome de El Rey. Mas os nativos não o deixaram – trituram-lhe o crânio com uma borduna. Magalhães não resistiu e nunca mais o viram em Portugal.

Após desencarnar, sua nau tomou direção desconhecida.

Quatrocentos e oitenta anos mais tarde, Fernão encontrava-se no umbral do Mundo das Luzes. 

Na passagem por Alfa Centauri, seu escrivão genovês, Pigafetta, despencara de estibordo em plena infinitude do Criador. Cheio de dor, a Fernão não restou outra que velejar sozinho. E então registrou em seu diário uma avistagem de tirar o fôlego. 

Distraído não se sabe por quê fenômeno celestial, repousou seu diário sobre o peitoril do convés, e ali o esqueceu. O diário também despencou no Cosmo, serpejando em direção a um grande Buraco Negro.

Captada por um possante radiotelescópio fincado nas escarpas do Valle del Elqui, nos Andes, a mensagem na página aberta dizia: “Este sol brilha mil, multiplicado por mil vezes mais do que nossa velha lamparina da Via Láctea. Sua luz cegou-me. Tudo são brumas”.

“Imagine-se a seguinte imagem”, escreveu ele: “Em Calicuta das Índias alguém suspende uma torrada com geleia diante de uma vela. No mesmo instante, mas em Portugal, mediríamos os restos das chamas da vela, sendo com isso capazes de determinar o tipo de marmelada que em Calicuta fora aplicada à fatia do pão!”

Fernão não sabia que sua velha nau, com rachaduras no madeirame e velas estropiadas, tinha navegado 150 mil anos-luz.

Sempre distraído, como naquela manhã, à entrada do labirinto da Terra do Fogo, agora acabara de descobrir a Nebulosa de Magalhães.