21 janeiro 2013

Frederico Füllgraf - A selvagem da motocicleta


Marie-Therese von Hammerstein: uma jovem contra o nazismo

Ensaio

São nove da manhã, e a BMW de setecentas cilindradas cospe fogo na estrada. Annete Rosenbauer sente o escapamento esbraseado morder-lhe as canelas. A cento e vinte por hora, apesar do capacete de couro encaixado na cabeça, o vento metralha com rajadas geladas e afiadas como estiletes em seus ouvidos.
Depois de deixarem para trás Dresden, rumo à fronteira da Tchecoslováquia, a piloto faz um giro de vinte e cinco graus, para trás, e berra um aviso de que vai parar. Então a máquina resvala com marcha desacelerada para o acostamento.  - Não aguentava mais! – diz Marie-Therese, desfazendo-se do capacete e das luvas, enquanto apeia. – Se não tiver a mesma pressa, fique de guarda, que eu volto já! – ela ajunta para sua passageira, divertida, já correndo para trás de uns arbustos. Escrutinando em panorâmica a paisagem, em busca de intrusos, e rindo, porque a única intrusa, ali, é ela, Marie-Therese desprende o cinto e arria a calça de couro, que arrasta consigo a calcinha, até abaixo dos joelhos, e se agacha. Passarinhos saltitam e cochicham na galhada. Ao longe, ela divisa uma grande cegonha branca circunvoando um grupo de agricultores na seara – como é deslumbrante aquele vale do Elba! Quando retorna à moto, cujo motor crepita enquanto esfria, e ainda ocupada com afivelar o cinto da calça, Annete a contempla e se pergunta, intrigada, por que essa jovem, tão bonita, decidiu meter-se nessas aventuras mais que perigosas, ao invés de investir num “bom partido”.
Annete é descendente de judeus. Isto quer dizer que, desde 30 de janeiro de 1933, ela pertence a uma minoria acusada nos discursos do Reichs-Propagandaminister, Dr. Joseph Goebbels, de “raça odiosa e conspiradora”. Mas se ela, Annete, se sente como alemã, ora essa! Militante da Juventude Comunista, ainda por cima, agora ela também corre perigo de vida.
Nestes primeiros vinte dias de fevereiro de 1933, milhares de socialdemocratas e comunistas foram presos. Suas bancadas parlamentares, completas, no Reichstag, foram abduzidas para um novo tipo de prisão, cuja abreviatura é KZ, de Konzentrationslager – campo de concentração. Era uma invenção inglesa, mas os nazistas a tinham aperfeiçoado. Findo o mês de janeiro, estava morta a Democracia, enterrada a República de Weimar. O congresso do Reichstag, fechado; todos os partidos políticos, menos o nazista, declarados ilegais; a imprensa, amordaçada. Tudo temperado por uma avalanche de discursos ultranacionalistas e xenófobos.
Há vinte dias, na Alemanha o terror estava desatado, e o inacreditável em tudo aquilo era que as pessoas pareciam felizes, aplaudiam aquelas hordas vestidas de marrom, sempre marchando ao som de estrepitosos hinos marciais. Por isso, Annette e sua família tinham recebido o aviso para cair fora. Mas na Alemanha também se conjugava aquele adágio que dizia “quem avisa amigo é!”. O bem informado pai de Marie-Therese não era propriamente um amigo de Annette. Mas sendo inimigo de seus inimigos, tornara-se seu amigo. Ela tivera apenas dois dias para organizar-se e cair na estrada. Então Marie-Therese, aquele anjo loiro da nobreza que não se vexava em fazer xixi na capoeira, lhe dissera, “junte sua tralha, que eu a levo pra fora do país!”.
Tudo o que Annette leva em sua mochila são duas trocas de roupa, o nécessaire e, bem..., alguns endereços, escondidos sob suas roupas íntimas, onde não teriam a audácia de a apalparem.
Enquanto fumam seus cigarros e bebem um gole do café ainda quente, da garrafa térmica, Marie insiste no último ensaio da conversa que elas deverão desfiar no momento em que cruzarem a fronteira. Ato contínuo as duas mulheres voltam a montar a moto, que dispara entre os grotões do Elba, estrada afora.
E tudo correra como mandara o figurino: passaram a fronteira como duas amigas a passeio de compras, em Praga. “Sabe como é, seu guarda, ver o sol sangrar sobre a Cidade Velha, e depois morrer... - Veneza não tá com nada!” A bandeira com a suástica drapejando ao vento, o oficial sapecara mesmo uma continência às duas, com um sonoro Heil, Hitler! Que Marie respondeu com um Scheiss Hitler! Mas aí a moto já estava longe da cancela.
Cinco horas mais tarde - cinco horas cravadas, porque na ida, quando a moto assomara ao campo de visão de sua guarita, com reflexo nele completamente involuntário, mas religioso, toda vez que se aproximava um veículo, o guarda consultara seu relógio de pulso, e eram onze da manhã - a BMW de Marie-Therese voltava a aproximar-se de sua cancela. O policial surpreendeu-se porque no lugar da passageira apenas a embalagem de uma loja de departamentos ocupava a garupa. Então Marie-Therese inventou uma desculpa de família, obrigações imprevistas de sua amiga, coisas assim. Folheando o passaporte, por mero protocolo, tão inócuo quanto consultar o relógio toda vez que se aproximava algum veículo, desta vez o guarda de fronteiras não se conteve: - Quer dizer que a sra., ... - ou devo dizer srta.? – insinuou, perscrutando a mão direita da jovem mulher em busca de alguma aliança: - Quer dizer que estou aqui diante da filha do preclaro General Von Hammerstein? Afinal, não é todo dia...
E percorrendo com um par de olhos vulgares aquele corpo que apesar dos couros pretos, todos, não conseguia esconder curvas e compleições que pediam, sempre, um segundo olhar de admiração, o milico lhe devolveu os documentos, teimando em uma prosa pegajosa. Por isso, Marie-Therese saltou para a BMW, e o Heil, Hitler!... o vento levou.
Tinha duzentos quilômetros de estrada pela frente; bastante chão para pensar. Uma coisa era certa: a partir daquele dia, ela não deveria mais transportar fugitivos, cruzando o mesmo ponto da fronteira. Logo chamaria atenção. Se fosse para Praga novamente, tinha que estudar alternativas no mapa rodoviário. A máquina roncando entre suas pernas, abocanhando vorazmente o alcatrão, negro, que se insinuava como risca de fuligem na paisagem incendiada pelo poente, ela lembrou-se daquele tarde, do final de verão, fazia cinco anos. Tinha recém completado dezesseis anos de idade quando aquele homem de estatura mediana e seu bigodinho, que o vulgo chamava de “freio de nhaca”, conversava com seu pai na varanda de sua casa. Fazia dez anos que a Grande Guerra tinha terminado, e Kurt von Hammerstein Equord, seu pai, era Comandante do Reichswehr, aquele exército encolhido, minguado, de cem mil homens, imposto à Alemanha mediante o Tratado de Versalhes, dos vencedores.
Do Gal. Von Hammerstein dizia-se que nascera predestinado para a vida militar, porque aos onze anos de idade o rebento de uma muito antiga cepa da nobreza renana fora internado na Imperial Academia Militar, que só teve a virtual permissão de abandonar quando já se diplomara como oficial de estratégia. Mas então já era tarde, porque eclodira a guerra, e Von Hammerstein batera-se nela, sobrevivendo-a como herói fartamente galardoado. Porém, naquela rotina castrense predominava a tal severidade prussiana dos instrutores, que consistia no persistente rebaixamento moral do indivíduo e na punição da tropa; tratamento que Von Hammerstein abominava, quanto mais no âmbito de sua própria família.
Von Hammerstein Equord não fazia o gênero do “tipo alemão”, trabalhador devoto e cidadão consciencioso. Comportava-se como hedonista, tinha estampa de playboy. Do que o general mais gostava era de gente, mas quando as pessoas o enfastiavam, o aporrinhavam além da conta, deixava o trabalho para amanhã e saía para caçar e conversar com seus botões. Casara-se com Maria von Luettewitz, filha de um general, em cujo entendimento lugar de filha bonita era em casa, e não na escola ou nos anfiteatros da universidade. Para compensar os vazios em sua alma de mulher discriminada, por isso Maria von Luettewitz-Hammerstein não vacilou um instante quando suas filhas saíram da adolescência, enviando-as, todas, para a universidade. Marie-Therese, a mais bonita de suas quatro irmãs, escolhera Medicina, mas para sua surpresa o pai-general reagiu com as palavras, “tá doida? Aqueles ferimentos, a sangreira, toda?”
Naquela Alemanha, que aturdida pelo desfecho da Guerra de 1914, e humilhada por escorchantes, porque impagáveis reparações, tentava reinventar-se, os mentores das tradições definidas como perenes pregavam impassíveis a submissão ao velho autoritarismo. Neste território dos incorrigíveis Von Hammerstein estabelecera sua muito particular ilha do liberalismo e do laissez-faire. O general negava-se a submeter seus sete filhos à voz única e ao rebenque da caserna, incentivando neles a natureza rebelde que logo lhes conferiu a má fama de “selvagens”.
Mas voltando àquela tarde de 1928. Kurt von Hammerstein tinha convidado Adolf Hitler para uma tertúlia em sua casa. Queria ver o sujeito de perto, como disse. O encontro fora articulado pelo empresário Bechstein, construtor do famoso piano. Como Winifred Wagner, sobrinha do célebre compositor de óperas, sua esposa era ardente admiradora do líder nazista. Perspicaz, era uma das distinguidas senhoras que se esmeravam em ministrar arguciosas aulas de etiqueta ao austríaco boquirroto: a composição de um smoking com os tecidos adequados, como beijar a mão de uma dama, a forma correta de abordar uma conversa, como destrinchar um salmão com os respectivos talheres, como brindar, e assim pro diante; cerimoniais e culto ao estilo que não raras vezes aproximavam de um ataque de nervos o ex-cabo austríaco. Sua tropa de choque migrara desde Munique, instalando-se na capital do Segundo Reich, mas com seu comportamento torpe, jargão bronco, e seu insuportável fedor a sovaco fazendo torcer os narizes da nobreza. Cujas reuniões de gala e jantares tornara-se necessário freqüentar, porque da simbiose entre nobreza e grande indústria saíam os apoios, principalmente as doações em dinheiro.
Há séculos instalada nos postos de comando das forças armadas, e embora enxergasse nos nazistas um bando de caipiras, estúpidos, uma notável fração daquela nobreza sentia-se irresistivelmente atraída pelo rude charme das falanges hitleristas, porque teimavam em reverberar até tornar verdade um insidioso boato: a tal lenda do “apunhalamento pelas costas”. Traduzida para os não-entendidos, a lenda afirmava que, sem perder a guerra em campo, a tropa fora “apunhalada pelas costas”, quer dizer: em casa, no instante em que o novo governo social-democrático assinara o termo de rendição.
Agora, Marie-Therese se lembrava das palavras do seu pai, à mesa do jantar, sobre a conversa com Hitler na varanda, queixando-se de que o líder nazista “falava demais e de forma confusa”, motivo pelo qual o deixara falando sozinho. Apesar do desprezo do general, Hitler se despedira não sem lhe presentear uma assinatura de um pasquim nazista que Von Hammerstein desdenhou, visivelmente enfastiado. Para sua surpresa, em 1930, o velho presidente, Von Hindenburg, o nomearia Chefe do Estado Maior das forças armadas, oportunidade em que o New York Times o elogiou como “um dos [homens] mais capazes e inteligentes” que naqueles dias vestiam farda.
Naqueles dias, como grande refúgio acolhedor de judeus perseguidos no Leste Europeu, Berlim se tornara palco de enorme efervescência do jovem movimento sionista que sonhava com o “retorno à terra prometida” - o desembarque na Palestina. Algumas jovens alemãs, entre elas Magda Ritschel, futura Sra. Goebbels, freqüentavam aqueles círculos sionistas. Outra delas era Marie-Therese von Hammerstein. Como Magda, ela se sentira seduzida em emigrar para a Palestina. Trancando a matrícula de seu curso de Medicina, começou a trabalhar como aprendiz de jardinagem: “me sentava no meio de uma plantação de batatas, e com meu microscópio eu contava cromossomos”, ria-se de seu repente.

Então o inevitável aconteceu: Marie-Therese se apaixonou por um jovem judeu, de nome Werner Noble, e engravidou. Mas a Alemanha, ela ruminara com seus botões, não era um lugar onde as pessoas devessem criar filhos. E sem que o futuro pai pudesse reclamar direitos, do jeito que engravidara, Marie-Therese abortou. O relacionamento se esfarelou, mas logo em seguida a filha do Comandante do Estado Maior encetava novo romance. A escolha recaiu mais uma vez ditada, não por seu coração, mas por sua cabeça, teimosa: Joachim Paasche tinha um não se sabia quantos avos de sangue judeu. O comportamento da moça começou a chamar atenção, parecia birra. Liberada aos seus vinte e um anos de idade sabia-se que Marie-Therese tinha um fraco por homens vigorosos e determinados. E Paasche era tudo, menos a encarnação do macho que não vacila numa encruzilhada e dá o norte. Era neto do antigo vice-presidente do Congresso, e filho de um intelectual e fazendeiro, pacifista, recém-assassinado em sua própria fazenda por mercenários dos Freikorps; milícias revanchistas que aderiram majoritariamente ao partido nazista.
Joachim Paasche não conseguia ou queria recuperar-se do choque da morte brutal do pai, tornando-se enfermiço, fraquejando pela vida, odiando a política. Amava Marie-Therese, sentia-se perdidamente atraído por sua “força primal, amazônica”. Por outro lado, resistia a depender dela emocionalmente, porque “ela é única, e é provável que me machuque muito, caso venha a perdê-la. Por isso é melhor nem pensar em atar-me a ela”, resignou-se o neto indisposto do antigo vice-presidente do Reichstag. Nas entrelinhas, aquelas palavras ecoavam uma tolerância ditada pelo medo do abandono, com homens malhados e determinados na vida e na cama de Marie-Therese.
Do modo como surpreendeu muitos alemães, que só se descobriam “judeus” à medida que eram perseguidos, Paasche teve seu curso de Direito interditado pelos nazis, e resolveu mergulhar no aprendizado de línguas exóticas para a época; o mandarim e o japonês. Marie-Therese, em contrapartida, tornara-se sionista convicta. Em seguida, os dois resolveram casar-se. Registros da crônica familiar atestam que o Gal. Von Hammerstein sentia-se muito pouco entusiasmado com a figura do genro, não comparecendo à cerimônia das bodas, realizadas em março de1934. Por que, diabos, então, a filha do general insistia naquele casamento? Seria para contrariar Maria von Luettewitz-Hammerstein, sua mãe, sabidamente anti-semita? Ou porque Joachim era filho e neto de dois alemães tão dessemelhantes daquela choldra que acabara de tomar o poder?
Marie-Therese, ao que tudo indica, ansiava em inscrever sua biografia numa outra História, talvez fosse isso.
Em outubro de 1934, o casal Paasche-Von Hammerstein deixava a Alemanha, rumo à Palestina. Nos kibutz que proliferavam nas recém-criadas colônias sionistas, os judeus europeus se obstinavam em subjugar as areias do deserto, arrancar leite de pedras. Poucos meses depois, o delicado Joachim Paasche admitia que o forcejar literalmente bíblico era um custo alto demais para converter-se em judeu, e o casal retornou à Alemanha. Mas então Marie-Therese foi detida e interrogada pela Gestapo. Novamente grávida, desta vez resolvera dar à luz, mas não na Alemanha nazista. Foi quando Joachim se lembrou que já sabia falar japonês, e os dois embarcaram para o distante Japão. Logo para o Japão? As decisões do casal faziam pouco sentido para quem estava alinhado no campo da resistência antifascista. Mas despedindo-se de seu pai, no final de 1935, Marie-Therese apostava que o nazismo duraria mais dois anos no máximo, e ela estaria de volta.
Enganava-se mais uma vez, e nunca mais voltaria a ver seu pai. Não fosse ele, e ela jamais teria desembestado pela geografia a bordo de sua BMW de setecentas cilindradas, comprada com uma parcela da herança deixada por uma tia.
Apesar de empossado na chefia do Estado Maior das forças armadas era segredo público que Kurt von Hammerstein Equord detestava os nazistas, que não raras vezes taxou de “bando de criminosos” ou de “porcos imundos”. Logo após a sua vitória nas eleições de janeiro de 1933, o general alertara o Presidente Von Hindenburg ao perigo que Hitler representava para a democracia. A resposta do marechal de campo, relapso e senil, foi liberar o general de suas atribuições, mas mantendo-o na ativa. Von Hammerstein percebeu que estava isolado no corpo de oficiais e resolveu aproveitar suas prerrogativas para agir em surdina. Respeitado apesar de suas posições excêntricas, mantinha excelente relacionamento com os serviços de inteligência, que começaram a abastecê-lo com relatórios sobre oposicionistas ameaçados pelo regime.
Criativo, mas ardiloso, como quem não queria nada, durante o café da manhã, o general infiltrava conversas de intenções eloqüentes: - Vocês conhecem fulano de tal? Pois eu soube que o sujeito está sendo observado. São favas contadas que vão prendê-lo....”. E mirando firmemente nos olhos cada um de seus filhos, estes não vacilavam em decifrar o código, terminando de servir-se e deitando mãos à obra. O que queria dizer, correr para alertar os ameaçados, ou até mesmo transportá-los para lugar seguro.
Por isso Marie-Therese era conhecida como a “selvagem da motocicleta”.
Menos de dez meses após a tomada do poder por Hitler, Kurt von Hammerstein Equord renunciava a todos os seus cargos, tentando preservar algum espaço que lhe permitisse ajudar os perseguidos. Fez isso durante seis anos, mas não aderiu à resistência ativa. Reativado em suas funções, em setembro de 1939, e delegado para o comando de tropas no delta do Reno, chasqueou entre amigos que sentia vontade de deitar as mãos em Hitler. E escreveu um convite ao Führer, pretextando que sua visita ao seu quartel-general serviria para estimular o moral da tropa. Vaidoso, Hitler aceitara o convite, mas depois, desconfiado, comunicara súbito impedimento. A História não explica se Hitler temia algum atentado, mas garantiu-se, sumariamente demitindo o respeitado general de suas novas funções. Desde então Von Hammerstein caíra no ostracismo.
Gravemente afetado por um câncer, no início de 1943, subitamente Kurt von Hammerstein Equord sentiu-se assaltado por seu velho espírito de justiceiro: - Se me dessem uma divisão eu conquistaria até mesmo o inferno, para arrastar lá de dentro o demônio encarnado em Adolf Hitler!“ Um mês depois, o egrégio general morria. Para evitar seu sepultamento com o esperado, mas hipócrita cerimonial nazista, sua esposa decide antecipar-se, enterrando-o rapidamente. Não conseguiu evitar a insistente coroa enviada por Hitler, mas a bandeira com a suástica, que deveria cobrir o caixão, foi desleixadamente “esquecida” num saco de papel, encontrado numa estação de metrô.
Conta a crônica que os filhos Kunrat e Ludwig deram prosseguimento à resistência encoberta do pai, participando da “Operação Valquíria“, o frustrado atentado à bomba de 20 de julho de 1944, para matar Hitler, no qual estavam envolvidos o Mal. Erwin Rommel e alguns oficiais do Estado Maior; todos condenados à forca, à decapitação, ou ao suicídio, como o de Rommel. Kunrat e Ludwig escaparam, mantendo-se na clandestinidade, o primeiro escondido por algum tempo no porão de uma farmácia, em companhia de um grupo de judeus, e Kunrat, fugindo para a Renânia. Em represália, o regime deitou mãos em Maria von Luettewitz-Hammerstein e seus dois filhos mais jovens, que são atirados nos campos de concentração de Buchenwald e Dachau, de onde foram libertados pelos americanos, um ano depois.
Sessenta e cinco anos após sua morte, feito um Chico Xavier tedesco, o escritor Hans Magnus Enzensberger “fala” com Kurt von Hammerstein Equord no além (Hammerstein oder der Eigensinn. Eine deutsche Geschichte. Frankfurt, 2008). Mas será o Benedito, como é admissível que nunca acertaram o Hitler, lhe cobra Enzensberger. Será que não havia um único oficial naquele pomposo exército, bom de pontaria? As “psicografias” preenchem páginas e mais páginas, numa penosa tentativa de garimpar conhecimento dos bastidores daquele corpo de oficiais engessado, de seus pensamentos, planos. A propósito, existia mesmo um plano de golpe e instauração de um governo militar, com Hitler fora de circulação? Sim, confirma Von Hammerstein, mas confessa sua imensa letargia. Por vezes a questão era “ter saco”. Era perfeitamente admissível, deduz Enzensberger, que a queda de Hitler não se efetivara mediante um golpe de seus generais, devido a atitudes insólitas como a preguiça. Atitude que não consta das páginas da História, mas que é capaz de escrevê-la.
Naqueles dias da conspiração, tardia e desencontrada, Marie-Therese vivia no Japão em companhia do marido, Joachim, e dos quatro filhos, nascidos um a cada ano. Apesar de súditos de um país aliado do Eixo, os Hammerstein-Paasche eram encarados com desconfiança no Japão. Em 7 de novembro de 1944, os japoneses tinham levado à forca Richard Sorge, jornalista alemão e espião da NKWD, que em 1941 alertara os soviéticos a dois acontecimentos insuspeitos que estavam por vir: que os japoneses não atacariam a URSS, mas que Hitler a atacaria. Para Stálin, Sorge não batia bem da cabeça, mas o Gal. Sukhov resolvera levar a sério seu alerta, deslocando colossais efetivos militares da distante Sibéria para o cinturão de defesa de Moscou, virando o jogo. Fora o começo do fim de Hitler. Por isso, Berlim tinha insistido tanto, pedindo a cabeça do maldito Sorge. Já os alemães residentes em Tóquio eram majoritariamente seguidores do regime, de modo que isolaram os Hammerstein-Paasche. Para não definharem de fome, durante muitos meses, a jovem de sangue azul e o neto do egrégio vice-presidente do Reichstag se alimentaram de plantas silvestres e fungos.
Não há registros de sua reação ao lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Mas é significativo que só em 1948 o casal alemão e seus quatro filhos, que falavam japonês, conseguiram permissão para emigrar aos EUA. Observados na Alemanha, no Japão tratados como suspeitos até aviso em contrário, recém-desembarcados nos EUA, iniciava-se seu fustigamento pelo FBI.
Para os Hammerstein-Paasche a guerra, agora fria, parecia não ter fim: durante quarenta anos afora o casal de alemães e seus filhos vegetaram na mais infame pobreza, só atenuada, na década de 1970, quando Joachim Paasche conseguiu um emprego na divisão de língua chinesa da Biblioteca do Congresso, em Washington. Foi quando finalmente decidiu converter-se ao judaísmo, pelo qual tanto sofrera. “Talvez fosse hora de fazer uma tentativa” disse ao filho, Gottfried. Até então Joachim vegetara seus dias como operário de fábrica.
Inteligente, bonita e generosa; nobre, militante antifascista e democrata convicta, a Marie-Therese von Hammerstein os Aliados, vitoriosos, não dispensaram generosidade maior - mais mesquinha, como se queira - do que obrigá-la a gastar o resto de seus dias como reles faxineira e cozinheira do american way of life. Morreu, pobre, em 2001, numa casa de repouso judaica, em San Francisco, Califórnia. Mas só fora admitida porque havia transportado em sua motocicleta e salvado a vida de alguns judeus.

Fotos: em sentido decrescente, Marie Therese, e seu pai,
Gal. Kurt Von Hammerstein Equord


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